Nada melhor pra me animar a voltar a escrever sobre mobilidade e ciclismo do que essa notícia que li nesse último domingo. De acordo com notícia publicada no portal G1, Anne Hidalgo, prefeita da capital francesa, deixou o cargo neste final de março após 12 anos comandando a cidade, deixando uma marca profunda na cidade luz “depois de promover uma das maiores revoluções urbanas em uma grande cidade nas últimas décadas”. Sua gestão mudou radicalmente o trânsito em Paris reduzindo o trânsito de veículos, fechando vagas de estacionamento, fechando ruas para o trânsito de carros e construindo ciclovias.
A notícia conta que, durante sua gestão, Hidalgo fechou cerca de 200 ruas para o trânsito de veículos automotores, removeu milhares de vagas para carros e, em seu lugar, plantou mais de 130 mil árvores. Muitas ruas às margens do rio Sena foram fechadas para carros e passaram a ser ocupadas apenas por pedestres e ciclistas.
Outro ponto do projeto de Hidalgo, bastante divulgado à época, foi o aumento do valor cobrado para estacionamento de carros tipo SUV no centro da cidade, como forma de desestimular o uso desse tipo de veículo, que é mais poluente ainda. Na região central da capital francesa, um dono de SUV pode pagar até 18 euros por hora (mais de R$ 100), valor que pode chegar a mais de R$ 2,5 mil por um dia inteiro.
Ciclovias e ciclofaixas
Além de ter um sistema de transporte bastante competente (os metrôs e os trens são excelentes meios para uso diário em Paris), a prefeita Anne Hidalgo ainda priorizou a abertura de ciclovias e ciclofaixas de forma agressiva na cidade, especialmente durante a pandemia, afirma a matéria do G1.
Tudo isso fez parte do projeto prioritário da gestão Hidalgo: preparar a capital francesa para as mudanças climáticas. Nesse aspecto, ao menos, podemos perceber que a gestão teve pleno sucesso. Inclusive, talvez por isso mesmo, a notícia dá conta de que Hidalgo está passando o cargo para um aliado, que deve seguir tocando
Conto isso pra dizer e mostrar, novamente, que a ideia, que o sonho, que o caminho (sem trocadilho algum) para cidades mais humanas e sustentáveis não é impossível. Em verdade, é bastante viável até.
A matéria conta que “o tráfego de carros caiu mais de 60% desde 2002 e o uso de bicicletas mais que triplicou, segundo dados da prefeitura. A qualidade do ar melhorou sensivelmente: segundo a prefeitura, as emissões de dióxido de carbono caíram 35%, e a presença de material particulado fino foi reduzida em 28% entre 2012 e 2022. Já a poluição por dióxido de nitrogênio diminuiu impressionantes 40% no mesmo período.”
Sem dúvida, um exemplo de sucesso, que deveria ser estudado com profundidade para ser usado, talvez, como parâmetro por outras cidades.
Aliás, dentro desse mesmo contexto, lembro que países como Holanda, Dinamarca, Alemanha, Bélgica e Grã-Bretanha, também já criaram planos para estimular uso da bicicleta como meio de transporte, com diferentes tipos de incentivo, como redução de impostos, pagamentos por quilômetro rodado e apoio financeiro na compra da magrela.
Em 2014, aqui mesmo no blog, escrevi sobre um programa lançado lá mesmo, na França, para estimular as pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte, principalmente no trajeto casa-trabalho-casa. Um grupo de empresas se comprometeu a pagar 25 centavos de euro por quilômetro percorrido. Foi um programa experimental, com previsão inicial de 6 meses de duração. A notícia foi amplamente divulgada, principalmente nos sites e canais ligados ao ciclismo e à mobilidade urbana.
Testemunha
Aqui, mais do que apenas do que ler e divulgar a notícia, pude comprovar tudo que li. Tive a oportunidade de ir algumas vezes a Paris nesses últimos anos e posso dizer que, mesmo sem conhecer os números, essa revolução realmente aconteceu na prática.
Não imaginava que Paris fosse me surpreender por esse ponto. A cidade luz tem tantos encantos, tem aquele cheiro de pão que se espalha pela cidade vindo das milhares de boulangeries parisienses, os milhares de charmosos cafés com suas mesas viradas para as ruas, as pontes sobre o Sena, a imponente Torre Eiffel, lindas igrejas, museus incríveis, muitas histórias, muitas marcas da 2ª Guerra Mundial em cada esquina. Mas o grande número de ciclistas (e de patinetes, é bem verdade) nas ruas me chocou.
Impressionou-me demais a quantidade de ciclistas que andam pela cidade, com roupa de trabalho mesmo, usando a bicicleta como meio de transporte. O número de patinetes (as trottinetes) circulando pelas ruas também é muito expressivo. E vi e caminhei por muitas ruas que foram fechadas para o trânsito de carros. Isso transforma a experiência de conhecer a cidade, para nós turistas, e com certeza transforma também para quem mora e trabalha por lá.
Enfim, a velha Paris se renova e se prepara para enfrentar as mudanças climáticas com coragem e ousadia. Será que por aqui podemos esperar algo nesse sentido?
Confira aqui a íntegra da matéria do G1.

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