quarta-feira, 15 de abril de 2026

15 de abril, Dia internacional do Ciclista

 É hoje. Para mim, é uma data importante. Como sempre digo, me defino basicamente como um ser de duas rodas. O ciclismo está na minha formação como pessoa. Pedalo desde os 6 anos de idade, mais ou menos. Foram poucos os  períodos que fiquei sem bicicleta, sem pedalar, durante todos esses anos. E, no maior tempo que fiquei sem uma magrela, arranjei logo uma moto, que ficou comigo por uns dez anos. Então, sim, é uma data que me toca. 

Mas, até para manter a coerência, como faço quando chega o Dia Internacional da Mulher, Dia do Indígena ou o Dia da Consciência Negra - para lembrar apenas algumas das principais efemérides do nosso calendário -, entendo que não se trate de data para “dar parabéns”, lembrancinhas ou abracinhos com tapinhas nas costas.

Essas datas não são comemorativas, não são festivas. Não pra mim.  

O Dia Internacional do Ciclista foi instituída em 2018 pela União Ciclística Internacional (UCI) para marcar a importância do ciclista no contexto da sociedade. E acho que é exatamente esse o papel desse dia: reforçar essa importância, concentrar ações para lembrar da necessidade de respeito, de valorização e de reconhecimento, por parte das pessoas, e de apoio e investimentos em infraestrutura, por parte do Estado. Mais uma data de luta por direitos, assim como as datas que citei acima.

É um momento de conscientizar motoristas e motociclistas para os cuidados que devem ter no trânsito, para a necessidade de saber compartilhar as nossas vias em paz com todos. E dia para conscientizar as autoridades sobre a importância de se investir em infraestrutura cicloviária, em campanhas de educação e em fiscalização. 

Mas também é um momento para se trabalhar a conscientização dos próprios ciclistas, sejam eles pedalantes infantis e recreativos até esportistas de ponta. Todos que se movimentam sobre duas rodas, sobre uma bicicleta, precisam entender que ser ciclista é um estilo de vida, é um comportamento, é uma forma diferente de ver e compreender o mundo. E precisam entender que cada ciclista é o principal responsável por sua própria segurança no trânsito.

Como tudo nesse mundo, o ciclismo mudou muito nos últimos anos, principalmente aqui no Brasil. O uso da bicicleta como meio de transporte saiu das pequenas cidades e do interior para se espalhar pelas grandes cidades. Pelo que leio e pelo pouco que pude testemunhar, nas principais capitais europeias essa, inclusive, já é uma tendência irreversível. O uso diário da bicicleta, que veio de uma necessidade por condições financeiras pessoais ou mesmo falta de estrutura viária em muitos rincões do país, passou a ser vista como meio de transporte nas grandes cidades, por pessoas que têm carro, mas optam por se locomover sobre duas rodas e a força das próprias pernas. 

Mas assim como a inserção da bicicleta no sistema viário das cidades cresceu, o número de carros e motos também aumentou e vem aumentando, nesse caso exponencialmente, nos últimos anos. E, como sempre friso, o sistema viário todo é focado nos automóveis. 

Então, para nós, ciclistas, o que nos resta é nos unir, assumirmos nossa responsabilidade, aprendermos a respeitar as normas de trânsito e a boa convivência nas ruas e avenidas e, só a partir daí, lutarmos para termos nossos direitos reconhecidos e respeitados.

Que a data, então, seja esse momento das pessoas que vivem e se locomovem diariamente pelas cidades prestem mais atenção nos ciclistas, respeitem os ciclistas e exijam respeito dos ciclistas. Que os recebam no trânsito com responsabilidade, com respeito, com atenção e cuidado. 

Que afinal, possamos um dia comemorar o dia do trânsito leve, do trânsito pacífico, da mobilidade urbana inclusiva e de qualidade. O dia da cidade feliz. Hastearmos uma bandeira branca no trânsito, para não precisarmos mais ter tantas bicicletas brancas plantadas em canteiros às margens das pistas da cidade. 

Na imagem ao lado, o pedal que fiz pra marcar a data. Passando por ciclovias, por ruas, por atalhos de terra

 

 

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Japão passa a multar ciclistas e Rio regulamenta uso de ciclomotores, patinetes e bike elétricas

imagem criada por IA
Já pensou ter que pagar uma multa de cerca de R$ 100 por uso indevido da buzina? Ou R$ 200 por frear bruscamente e quase R$ 400 por estacionar em vaga reservada a idosos? Creio que no Brasil isso não pegaria nem para os motoristas de carros. Mas esses exemplos aí acima são multas dirigidas especificamente para ciclistas, e lá no Japão. Ou seja, no país do Sol Nascente, a partir de agora, ciclistas, assim como motociclistas e motoristas, passam a ser corresponsáveis pelo bom funcionamento do trânsito e pela segurança de todos. Como, aliás, deveria ser em todo e qualquer lugar.

De acordo com notícia publicada na Folha de São Paulo, desde 1º de abril de 2026, “a polícia em todo o Japão começou a pôr em prática uma emenda de 2024 à lei de trânsito de 1960, que impõe multas para 113 infrações relacionadas ao ciclismo”.




Além dos “tipos penais” listados acima, ainda estão previstas a proibição do uso de fones de ouvido durante a pedalada, pedalar segurando o guidão com apenas uma mão, utilizar bicicletas de marcha fixa sem freios e transportar "carga mal acomodada”. E, a mais controversa, a obrigatoriedade de se pedalar preferencialmente pelas vias, e não pelas calçadas. Isso apenas para maiores de 16 anos. Nada de crianças pedalando pelas ruas. 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro...

Já aqui no Brasil, segundo matéria publicada no O Globo, um decreto do município do Rio de Janeiro passa a regulamentar o uso de ciclomotores (as motinhas, com motor e sem pedal), veículos autopropelidos (patinetes elétricos e skates elétricos) e bicicletas elétricas nas ruas, calçadas, ciclofaixas e ciclovias da cidade.

Como regra geral, nas calçadas e outras áreas destinadas prioritariamente à circulação de pedestres, fica proibida a circulação de ciclomotores, bicicletas elétricas e patinetes elétricos.

A circulação de ciclomotores, patinetes e bicicletas elétricas nos parques deve ser regulamentada pela administração do próprio local. 

Nas ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, o decreto proíbe a circulação de ciclomotores e permite bicicletas elétricas e patinetes elétricos, com velocidade máxima de 25 km/h.

Nas vias urbanas a coisa ficou assim:

Nas vias com velocidade máxima superior a 60 km/h, fica proibida a circulação de ciclomotores, bicicletas elétricas e patinetes elétricos. 

Em vias com limite de até 60 km/h, podem trafegar apenas os ciclomotores, sempre na lateral direita da pista e no sentido da via. 

E, nas vias com velocidade máxima de até 40 km/h, os ciclomotores podem circular na via, também pela lateral direita da pista e no sentido da via. 

Para bicicletas elétricas e patinetes elétricos, a regra é usar a infraestrutura cicloviária quando ela existir; na ausência dessa estrutura, a circulação deve ocorrer na via, mas sempre na lateral direita da pista e no sentido da via.

O uso do capacete passa a ser obrigatório para os condutores desses veículos, e menores de idade não podem pilotar ciclomotores.

O decreto prevê ações e campanhas educativas e fiscalização de forma integrada, com instalação de sinalização viária e medidas operacionais com foco na segurança viária e na proteção da vida.

E, infelizmente, no meu entender, a norma não prevê nenhum tipo de sanção ou multa pelo desrespeito ao que definido.

Educação e multa

Eu sempre defendi que um projeto decente de mobilidade urbana, para dar certo, precisa passar, necessariamente e entre outras medidas, por um processo de educação pesada não só de motoristas e motociclistas, mas também dos ciclistas. O caso da faixa de pedestres em Brasília é um ótimo exemplo.

É certo que, no trânsito como em outras áreas da vida coletiva, o lado mais fraco deve sempre ser protegido por todos. Primeiro os pedestres, ciclistas na sequência, e aí partir daí motos, carros, vans, ônibus e caminhões. Essa seria a ordem crescente, os últimos sempre com a obrigação de ter mais atenção para cuidar da segurança dos grupos anteriores. 

Mas depois de décadas pedalando na cidade, seja por lazer, por esporte, por aventura ou como meio de transporte, fui testemunha de como uma grande parte dos ciclistas urbanos são de uma irresponsabilidade sem tamanho, e se colocam em riscos desnecessários muitas e muitas vezes. Raro, muito raro mesmo, pelo menos em Brasília, encontrar ciclistas que respeitem alguma norma de trânsito. Faixa de pedestre, sinal de trânsito, mão e contramão etc. Nada disso é respeitado pela grande maioria dos ciclistas. 

Ciclistas sobem calçadas, voltam para a via, furam o sinal fechado, não param nas faixas de pedestres, andam na mão, depois na contramão, sobem a calçada, atravessam a faixa como pedestres. 

Enfim, fazem e acontecem, sem a mínima noção do seu papel no trânsito e sem cuidar da sua segurança. Exigem seu direito, mas não cumprem sua parte no respeito às leis e ao direito dos outros. E, mesmo assim, sem fazer minimamente sua parte, vivem reclamando que motoristas (de carros e ônibus) e motociclistas são isso e aquilo e tudo mais. 

Aliás, abrindo um parêntese, o dia que você testemunhar um ciclista – ou os bastante conhecidos pelotões de ciclistas – que pratica o esporte pelas ruas de Brasília, parar num sinal de trânsito fechado ou na faixa de pedestre para alguém atravessar, por favor, não deixe de me falar, porque o fato será inédito. 

É uma birra que tenho mesmo com esse grupo. Acho o ciclismo de esporte fantástico. Mas esse grupo insiste em querer exercer seu direito de utilizar as ruas para praticar seus treinos, sem contudo aceitar fazer sua parte respeitando o direito do próximo e as leis de trânsito. Já assisti várias situações de extremo risco para pedestres e para os próprios ciclistas causados exatamente por conta desse desrespeito às leis. Fecha parêntese. (#prontofalei)

Aí você coloca esse ciclista urbano caótico, esse cidadão no patinete ou na sua bicicleta elétrica ou seu ciclomotor no meio do trânsito intenso, de pistas sempre cheias, com motoristas mal-educados, estressados ou despreparados para partilhar as vias; motociclistas que passam muitas horas em cima de suas motos, sempre com pressa e correndo riscos para fazer sua entregas e garantir a féria do dia; motoristas de ônibus e caminhões também cansados, estressados, e está desenhado o mapa do caos absoluto no trânsito. É o espaço mais que ideal para ocorrência de acidentes, muitos dos quais fatais, principalmente para pedestres e ciclistas.

No bolso

E, se tem uma coisa que nos faz aprender mais rápido, que nos “inspira” a incluir algo no nosso dia a dia é quando a sanção vem no bolso, como o caso das multas japonesas. Ou como no caso da faixa de pedestres aqui em Brasília, citada acima. Uma campanha forte de educação aliada a uma fiscalização marcante e a aplicação de multas no caso de desrespeito formaram uma receita de sucesso que fez a faixa pegar na capital da República e se tornar exemplo para o resto do país. 

Quem sabe?

Não conheço a cultura japonesa e nem como funciona o trânsito naquele país, e muito menos faço parte dos cerca de 8 milhões de cidadãos japoneses que usam suas bicicletas diariamente para ir trabalhar. 

Mas acho que a ideia da multa – sempre aliada à educação e à fiscalização séria – é  uma experiência que deve ser analisada com bastante atenção por qualquer gestão que pretenda desenvolver políticas de mobilidade urbana sérias, inclusivas e sustentáveis que possam levar a cidades mais humanas.

Quem sabe a multa não possa ser um próximo passo a ser dado pela prefeitura da capital carioca rumo à implantação dessa política de mobilidade urbana inclusiva. 

Quem sabe a multa seja mais um elemento a compor uma política de mobilidade urbana pensada para se concretizar, para surtir efeito. No Japão, na Europa, no Brasil, em todo o mundo. 

E não apenas mais uma medida com o único objetivo de conquistar a simpatia de alguns eleitores para ganhar alguns votos a mais na próxima eleição!

Confira a íntegra do Decreto 57823/2026, do Rio de Janeiro. 

 

 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

A Copa do Mundo de 2014 no transporte público só começou agora

 

São Paulo capital inaugurou, nesse final de março de 2026, a Linha 17-ouro do monotrilho, trecho do Metrô da capital paulista que liga a região do estádio do Morumbi ao aeroporto de Congonhas. A notícia não mereceria maiores destaques não fosse uma particularidade: a obra deveria ter sido entregue antes do início da Copa do Mundo de Futebol realizada no Brasil em junho de 2014. O atraso na entrega chegou a quase 12 anos.

A relação da linha com o torneio esportivo fica claro até mesmo pelo seu trajeto, que liga a região do estádio do Morumbi (na zona oeste) ao aeroporto de Congonhas (na zona sul). Isso porque o estádio do São Paulo Futebol Clube ia sediar jogos daquele campeonato, o que acabou não acontecendo. Os jogos em São Paulo foram realizados na então recém-construída Arena do Corinthians, na zona Leste da capital. 

As composições da Linha 17 são bem menores que o padrão dos trens em São Paulo, e isso talvez se explique pela previsão de demanda para a linha. Enquanto algumas linhas têm trens com quase 130 metros e demanda diária de até 800 mil usuários, os trens da nova linha 17 têm 60 metros para comportar uma previsão de demanda de cerca de 100 mil usuários por dia útil.

Uma coisa legal de destacar: o trem da linha 17-ouro tem baterias recarregáveis com autonomia para até 8 km. Ou seja, em caso de necessidade, como em um apagão, o trem tem carga suficiente para percorrer todo o trecho.

Atraso também em Brasília

Mas o destaque da notícia, o atraso de mais de uma década para conclusão do projeto, não é privilégio dos paulistanos. O mesmo aconteceu em muitas das cidades sede dos jogos daquele torneio. 

Foi o caso de Brasília, em que muitas promessas de obras para a Copa do Mundo de 2014 nunca forem entregues – algumas sequer começaram a ser tocadas e outras que nunca foram concluídas, ou foram concluídas muitos anos depois do evento.

Uma das ações mais propaladas da época que foram previstas para Brasília, ao menos na área da mobilidade urbana, foi o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que seria construído ao longo da avenida W3 e chegaria até o aeroporto. Na época, chegaram a um expor um trem modelo no final da W3 Sul, para dar o gostinho do que viria pela frente. Mas o projeto nunca deslanchou. O que se sabe é que ainda está em estudos.

Ao menos o viaduto no final da W3 Sul, que fazia parte do projeto do VLT em direção ao aeroporto, foi concluído e ajudou a melhorar o trânsito de veículos na área entre o Setor Hospitalar Sul e o Setor Policial. 

Mas, de novo e coincidentemente, acabaram concluindo apenas a parte do projeto que atende ao mercado automobilístico. Afinal, essa é a verdade força motriz do país, responsável por uma fatia muito importante da arrecadação tributária do governo. 

Outra obra importantíssima ligada à mobilidade prometida no DF, o projeto de revitalização do sistema metroviário, incluindo a compra de novos trens e a expansão das linhas em Samambaia e Ceilândia, só começaram a ser tocadas anos depois do torneio futebolístico e, até onde sei, ainda não foram concluídas. É o caso das estações da 104 sul e Onoyama (em Taguatinga), e também a tão falada expansão para a Asa Norte. Essa expansão, aliás, já se tornou uma espécie de lenda na cidade, com diversas teorias (algumas até bem assustadoras) explicando por que o metrô não pode ir para o lado norte. Mas isso é tema para um outro post.

Esperança

O fato de algumas dessas promessas ainda estarem, de alguma forma, tramitando – em estudos, em análise – permite que se tenha esperança de que venham, um dia, a ser finalmente executadas e entregues à população. 

É importante termos consciência do estado em que se encontram esses projetos e, de alguma forma, pressionarmos nossos políticos – seja na Câmara Distrital, no Parlamento Federal e no Executivo local – a se comprometerem com essas pautas. 

A expansão do Metrô-DF e a implantação do VLT são dois projetos que trariam muitos benefícios aos cidadãos. Não vão mudar o mundo, mas são projetos necessários para continuarmos sonhando com uma capital federal com um sistema de mobilidade minimamente amigável. 

 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Paris promove revolução urbana em favor da mobilidade

Nada melhor pra me animar a voltar a escrever sobre mobilidade e ciclismo do que essa notícia que li nesse último domingo. De acordo com notícia publicada no portal G1, Anne Hidalgo, prefeita da capital francesa, deixou o cargo neste final de março após 12 anos comandando a cidade, deixando uma marca profunda na cidade luz “depois de promover uma das maiores revoluções urbanas em uma grande cidade nas últimas décadas”. Sua gestão mudou radicalmente o trânsito em Paris reduzindo o trânsito de veículos, fechando vagas de estacionamento, fechando ruas para o trânsito de carros e construindo ciclovias. 


A notícia conta que, durante sua gestão, Hidalgo fechou cerca de 200 ruas para o trânsito de veículos automotores, removeu milhares de vagas para carros e, em seu lugar, plantou mais de 130 mil árvores. Muitas ruas às margens do rio Sena foram fechadas para carros e passaram a ser ocupadas apenas por pedestres e ciclistas.

Outro ponto do projeto de Hidalgo, bastante divulgado à época, foi o aumento do valor cobrado para estacionamento de carros tipo SUV no centro da cidade, como forma de desestimular o uso desse tipo de veículo, que é mais poluente ainda. Na região central da capital francesa, um dono de SUV pode pagar até 18 euros por hora (mais de R$ 100), valor que pode chegar a mais de R$ 2,5 mil por um dia inteiro.

Ciclovias e ciclofaixas

Além de ter um sistema de transporte bastante competente (os metrôs e os trens são excelentes meios para uso diário em Paris), a prefeita Anne Hidalgo ainda priorizou a abertura de ciclovias e ciclofaixas de forma agressiva na cidade, especialmente durante a pandemia, afirma a matéria do G1. 

Tudo isso fez parte do projeto prioritário da gestão Hidalgo: preparar a capital francesa para as mudanças climáticas. Nesse aspecto, ao menos, podemos perceber que a gestão teve pleno sucesso. Inclusive, talvez por isso mesmo, a notícia dá conta de que Hidalgo está passando o cargo para um aliado, que deve dar continuidade aos projetos de programas dela.

Conto isso pra dizer e mostrar, novamente, que a ideia, que o sonho, que o caminho (sem trocadilho algum) para cidades mais humanas e sustentáveis não é impossível. Em verdade, é bastante viável até. 

A matéria conta que “o tráfego de carros caiu mais de 60% desde 2002 e o uso de bicicletas mais que triplicou, segundo dados da prefeitura. A qualidade do ar melhorou sensivelmente: segundo a prefeitura, as emissões de dióxido de carbono caíram 35%, e a presença de material particulado fino foi reduzida em 28% entre 2012 e 2022. Já a poluição por dióxido de nitrogênio diminuiu impressionantes 40% no mesmo período.”

Sem dúvida, um exemplo de sucesso, que deveria ser estudado com profundidade para ser usado, talvez, como parâmetro por outras cidades.

Aliás, dentro desse mesmo contexto, lembro que países como Holanda, Dinamarca, Alemanha, Bélgica e Grã-Bretanha, também já criaram planos para estimular uso da bicicleta como meio de transporte, com diferentes tipos de incentivo, como redução de impostos, pagamentos por quilômetro rodado e apoio financeiro na compra da magrela.

Em 2014, aqui mesmo no blog, escrevi sobre um programa lançado lá mesmo, na França, para estimular as pessoas a usarem a bicicleta como meio de transporte, principalmente no trajeto casa-trabalho-casa. Um grupo de empresas se comprometeu a pagar 25 centavos de euro por quilômetro percorrido. Foi um programa experimental, com previsão inicial de 6 meses de duração. A notícia foi amplamente divulgada, principalmente nos sites e canais ligados ao ciclismo e à mobilidade urbana.

Testemunha

Aqui, mais do que apenas do que ler e divulgar a notícia, pude comprovar tudo que li. Tive a oportunidade de ir algumas vezes a Paris nesses últimos anos e posso dizer que, mesmo sem conhecer os números, essa revolução realmente aconteceu na prática. 

Não imaginava que Paris fosse me surpreender por esse ponto. A cidade luz tem tantos encantos, tem aquele cheiro de pão que se espalha pela cidade vindo das milhares de boulangeries parisienses, os milhares de charmosos cafés com suas mesas viradas para as ruas, as pontes sobre o Sena, a imponente Torre Eiffel, lindas igrejas, museus incríveis, muitas histórias, muitas marcas da 2ª Guerra Mundial em cada esquina. Mas o grande número de ciclistas (e de patinetes, é bem verdade) nas ruas me chocou.

Impressionou-me demais a quantidade de ciclistas que andam pela cidade, com roupa de trabalho mesmo, usando a bicicleta como meio de transporte. O número de patinetes (as trottinetes) circulando pelas ruas também é muito expressivo. E vi e caminhei por muitas ruas que foram fechadas para o trânsito de carros. Isso transforma a experiência de conhecer a cidade, para nós turistas, e com certeza transforma também para quem mora e trabalha por lá. 

Enfim, a velha Paris se renova e se prepara para enfrentar as mudanças climáticas com coragem e ousadia. Será que por aqui podemos esperar algo nesse sentido?

 

Confira aqui a íntegra da matéria do G1. 

 

 

  

terça-feira, 27 de maio de 2025

Pedal de 7km e 7 tipos diferentes de piso - a aventura do ciclismo urbano

O dia amanheceu nublado, mas com aquelas nuvens mais brancas e altas. Não ia chover. E tava bem fresquinho, bom pra pedalar. Logo depois de preparar o primeiro café, reparei que a comida da Benta (papagaia do Congo que mora comigo) estava bem no fim. Pronto, já tinha um bom motivo pra um pedal. A pet shop fica a uns sete quilômetros de casa. Passeando, dava um pedal de 15 km ida e volta. Perfeito.

Casa ajeitada, hora de partir. Caramanhola cheia, capacete, óculos amarelo, apito pendurado no peito, sapatilha, luzes de sinalização ligadas, uma conferida rápida na bike. Tudo ok. Portão de casa aberto e partiu.


E aí, é aquilo que quem pedala em Brasília já tá acostumado. Em sete quilômetros dentro da mesma Região Administrativa, pedalei por vários tipos de pistas e pavimentos. Andei em ciclovia, andei pela pista, pedalei em grama, trafeguei por calçada que finge ser ciclovia, calçada que é calçada mesmo e até por um trecho de terra.   

Foram sete quilômetros de percurso, e sete pisos diferentes. É impressionante. Eu já comentei várias vezes que na cidade não há nenhuma ciclovia permanente, que se possa cruzar longos trajetos pela cidade, como em outras cidades que já tive oportunidade de visitar.

Como este exemplo de Nova York, citado em texto que li no último final de semana no jornal de Folha de São Paulo sobre um decreto do presidente Donald Trump que faz uma caça aos imigrantes perseguindo ciclistas, já que muito imigrantes, pobres, acabam encontrando seu ganha-pão trabalhando, de bicicleta, para aplicativos de entrega. 

Mas, para além do absurdo da medida, um trecho da matéria me impressionou, mas de uma forma positiva. Diz o autor que 

Na cidade de Nova York a coisa é diferente. O desenvolvimento social e urbanístico de Manhattan privilegiou o transporte de massa e, na última década, a micromobilidade (veículos leves, como bicicletas e patinetes).

Aqui na Frederick Douglass passa uma ciclorrota que me leva ao Central Park em menos de dois minutos. Por ela também chego em cinco minutos a três ciclovias que cruzam a ilha de norte a sul, entre elas a ciclovia do rio Hudson, que se prolonga com o nome de Empire State Trail até a fronteira do Canadá, a 1.200 km daqui.

Com os planos de ampliação cicloviária e do programa Visão Zero, que tem como objetivo zerar as mortes no trânsito, a cidade caminhava para se tornar um modelo universal de mobilidade sustentável e inclusiva. Até o Bronx, distrito mais pobre e lar de imigrantes desfavorecidos, está nos planos.

Apesar de retrocesso civilizatório trazido pela gestão Trump, uma cidade do porte gigantesco de Nova York, uma das poucas megalópolis do planeta, se tornar um modelo de ciclomobilidade é algo surpreendente. Fiquei imaginando essas ciclovias cruzando a cidade, cruzando a fronteira com o Canadá. Ciclovias planejadas com inteligência de trânsito e que ofereçam segurança para os ciclistas, para que se sintam encorajados a optar pela bicicleta como meio de transporte.

Na Europa, as principais capitais estão nessa mesma pegada, privilegiando essa micromobilidade e taxando o uso de carros nas principais regiões das cidades. Vi isso em Paris e em Berlim. E sei que o mesmo acontece em Amsterdã e tantas outras grandes cidades do velho continente.

Enquanto isso, aqui no Brasil, poucas cidades tem focado nesse tipo de mobilidade. Por aqui vivemos sob o pálio de iniciativas politiqueiras, com construção de pequenos pedaços de calçadas para bicicletas, voltado para o lazer do cidadão, das crianças, e com interesse eleitoral. 

Não consigo imaginar que não existam profissionais qualificados em nosso departamento de trânsito ou na Secretaria de Mobilidade (sim, temos uma secretaria na capital com esse nome, apesar da mobilidade em Brasília ser lastimável), e em outras áreas afins. Só posso acreditar que haja total falta de vontade política para privilegiar a micromobilidade. Não é crível que não haja dinheiro para tocar um projeto cicloviário na cidade, vendo a quantidade de obras sempre em curso na cidade com foco na indústria automobilística. 

Porque só o que é preciso é o GDF reunir esses profissionais técnicos, essa inteligência de trânsito e colocá-los em contato com representantes comunitários para levantamento de necessidades, com vistas à construção de um projeto sério de ciclovias. 

A gestão que assumir o GDF e levar adiante um projeto nesse sentido vai realmente ficar marcada como uma gestão revolucionária, que mudou o rumo (sem trocadilhos) da mobilidade na cidade. 

E veríamos Brasília, assim como Nova York, se tornar uma cidade modelo de micromobilidade.

É isso. Um abraço.

*Link para a matéria publicada na Folha de São Paulo: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/ciclocosmo/2025/05/em-nova-york-pedalar-pode-dar-cadeia.shtml



segunda-feira, 19 de maio de 2025

Projeto sério de ciclomobilidade é vantajoso para todos, ciclistas, motoristas, pedestres e pilotos

Ainda nem deu um mês que voltei a circular pela cidade em cima de uma bicicleta, cruzando ciclovias, ciclofaixas mas, principalmente, pistas mesmo, e já passei alguns perrengues nas pistas. Coisa boba, nada de muito risco. Mas deu pra já sentir outra coisa, que percebo que não mudou nessa década que fiquei longe do pedal: parece que alguns motoristas de carro - e, na minha estatística, prefiro ainda achar que são apenas alguns, e não muitos - simplesmente não enxergam bicicletas. Parecem padecer de algum problema crônico de visão seletiva, e só têm olhos para outros carros, caminhões, ônibus e, talvez, algumas motos mais barulhentas. Mas bicicletas, não veem mesmo.

Quando vou pra rua, em locais em que não tenho outra alternativa - ciclovia, calçada ou algo parecido - pedalo pela pista, na faixa da direita, mas não ando lambendo a borda da pista, o paralelepípedo, a sarjeta. Não ando acuado lá no cantinho. Porque, não sei se você já parou para perceber, mas aquele espaço junta toda sujeira da pista. Pequenas pedras, pedaços de vidro quebrado, parafusos, papéis, plásticos de todo tipo, terra, areia, borracha, óleo. Toda essa sujeira vai se acumulando no canto das ruas com o tempo, tornando muito perigoso trafegar por ali. 

Além disso, se você fica muito no canto da pista, você encoraja mais ainda os carros, motos e ônibus a passarem por você tirando finos. Se você está bem no cantinho, eles não precisam mudar de faixa ou desviar de você. Seguem normalmente pela faixa da direita e ultrapassam a bicicleta passando a poucos centímetros. É um risco enorme ter um carro ultrapassando enquanto você pedala naquele canto cheio de sujeiras e ainda por cima com o risco de você se deparar com uma boca de lobo ou uma grade de bueiro aberta, um desnível ou outra barreira da qual você precise se desviar. Simplesmente não tem espaço e nem tempo. Se você mudar o percurso, vai pra cima do carro que está na faixa. Se seguir sem desviar, pode pegar um buraco que bem provavelmente vai derrubar você.

Então, por esse motivo, entre outros, quando tenho que andar pela via, acabo pedalando pela faixa da direita, mais centralizado na faixa mesmo, como um veículo, "obrigando" os carros que quiserem me ultrapassar a mudarem de faixa, E aí, parece que essa postura incomoda alguns motoristas. 

Assumo que é um risco que corro. Mas, além da questão que expliquei acima, do risco de andar na beirinha da pista, também tem uma coisa de se posicionar. De ativismo, mesmo. Tenho os mesmos direitos, sou um veículo usando as pistas para me locomover pela cidade. A única diferença é que não tenho motor me impulsionando. Uso minha própria força motora para me movimentar. 

Não estou usando a pista para fazer exercício, como aqueles pelotões de ciclistas que usam as ruas como espaço de treinamento, que não param em sinais ou faixas de pedestre e não respeitam qualquer regra de trânsito mas gostam muito de exigir respeito. Sou contra esse uso das vias e rodovias como pista de treino por gente que não entende o papel de cada um no trânsito.

Mas, no meu caso, estou, de bicicleta, usando a rua para me locomover pela cidade. Indo ao trabalho, voltando do trabalho, indo a um mercado, indo fazer uma visita, um passeio, indo ao cinema. Uso a bike como a maioria das pessoas usa seu carro ou sua moto. 

E, muito importante. Como nessas situações estou me colocando em pé de igualdade com os motoristas que estão trafegando pela pista, assim como eles eu também sigo as regras do trânsito: ando na mão, paro nos sinais de trânsito e nas faixas de pedestre, sinalizo mudanças de faixa ou desvios de rota, ando equipado com itens de segurança - capacete, óculos, espelho retrovisor e luzes de sinalização. 

Tá certo. Eu concordo com você. O ideal seria eu não andar de bicicleta pela rua, disputando espaço com os carros, motos e ônibus. O ideal mesmo seria andar pelas ciclovias ou, no mesmo, pelas ciclofaixas. Mas, como você mesmo já deve ter reparado quando anda pela cidade de Brasília e suas regiões administrativas, apesar de as notícias apontarem centenas de quilômetros de ciclovias, essas pistas não se conectam. 

Você tá de lá, de boa na lagoa, pedalando por um ciclovia e, de repente, ela termina. Do nada. Você simplesmente ou tem que pedalar pela grama ou tem que encarar pedalar pela rua mesmo.

Então, de um jeito ou de outro, quem anda de bicicleta pela capital, pelo menos quem faz percursos mais longos, entre regiões administrativas, a passeio ou usando a bike como meio de transporte, uma hora vai precisar pedalar pelas ruas durante seus trajetos. 

E é aí que começam os problemas. E os perigos. Para ciclistas e para pilotos e motoristas. Sim, para os motoristas também. Porque se você, que dirige seu carro pelas ruas, eventualmente se envolver em um acidente com um ciclista, além de poder se machucar e ter prejuízo com seu carro, pode causar graves ferimentos ou até a morte de alguém. E eu nem consigo imaginar como isso deve ser complicado. 

Então, aqui, proponho uma reflexão e, talvez, um chamado à ação. Pense comigo. 

O fato de usar uma bicicleta para me movimentar pela cidade só traz vantagens, pra mim e e para os demais usuários do trânsito. Pense comigo: são menos carros nas ruas, diminuindo esse trânsito caótico; menos poluição, menos gasto de energia fóssil ou mesmo elétrica. Com o trânsito mais facilitado, se reduz o estresse. Se reduz o gasto de combustível e o gasto com a manutenção do veículo. Se reduz o tempo desperdiçado nos trajetos para o trabalho ou outros destinos. 

Pensando dessa forma, a criação de uma estrutura de ciclomobilidade séria, voltada para o uso da bicicleta como meio de transporte viável e segura, é uma grande vantagem para todos. Motoristas, pilotos, usuários de transportes públicos e pedestres. Não só para os ciclistas. Não se trata aqui de demonizar motoristas nem tentar enfrentar a indústria automotiva. Creio que haja espaço pra todos.

Então, a reflexão e o chamamento que faço é que todos que precisam se locomover pela cidade pelas ruas e avenidas, seja de carro, ônibus, moto, a pé ou de bicicleta, se juntem para cobrar do poder público um projeto sério de ciclomobilidade. 

Para o bem do ciclista. Para o bem dos motoristas. Para o bem de todos. 

Por uma cidade e um trânsito mais pacífico e inteligente.

Façamos todos nossa parte cobrando do governo, do legislativo, de quem tem o poder nas mãos.  

Porque de nada adianta só reclamarmos do trânsito, mas não pensarmos numa solução para o problema e não nos engajarmos em propostas que podem minimizar esse problema, que piora a cada dia e que promete inviabilizar as cidades em poucos anos, se nada for feito.

O que você acha? Vamos juntos nessa?

Pense nisso.

Até a próxima. 


quarta-feira, 14 de maio de 2025

Bicicleta: meio de transporte ou brinquedo?


Eu ainda estou naquela fase de me readaptar ao pedalar diariamente, e também de viver essa experiência de ver a cidade de cima de uma bicicleta. Como eu já andei muito pela cidade em cima de uma magrela, eu sei como é complicado e delicado, como é perigoso mesmo, como é preciso estar bem habituado, ter bastante prática. E como eu fiquei muito tempo afastado e não sei o que que aconteceu nesse tempo, ainda estou nessa fase de reencontro com a bike, e com a bike no trânsito.
 

Claro que nesses dias, mesmo estando nessa pegada de pedalar por aí só curtindo o pedal, já fui aproveitando pra começar a ver o que mudou em termos de ciclovias, ciclofaixas e outras estruturas voltadas para mobilidade. 

Mas antes de entrar com tudo no tema da mobilidade – ou da falta de estrutura para mobilidade alternativa aqui na cidade, que é que tenho visto – eu queria falar ainda um pouco dessa emoção da minha volta aos pedais. 

Queria lembrar como a bicicleta tem essa coisa lúdica, tem essa coisa de memória afetiva. Principalmente, claro, pra quem andou muito de bicicleta no começo da vida, como é o meu caso. Vira e mexe eu me pego brincando em cima da bicicleta. E vejo outras pessoas assim também, pessoas mais velhas, pedalando por aí, sempre com um ar leve, aparentemente satisfeitos só por estarem usando uma bicicleta pra se locomover, para irem ao mercado, à farmácia, ou mesmo só passeando por aí. A alegria que essas pessoas demonstram é visível. 

Mesmo usando a bicicleta como meio de transporte, para ir para o trabalho, para a faculdade, para a academia, para fazer o que quer que seja, a gente ainda se pega brincando, curtindo fazer uma curva, brincando de zigzaguear, "acelerando", curtindo uma descida de ladeira. Nessa hora, a gente acaba se sentido de volta àquela época de criança, quando a bicicleta era ainda só um brinquedão

Mas foi com esse brinquedo que eu posso dizer que comecei a conquistar o mundo. Passei minha primeira infância numa cidade de interior muito pequena. Pequena mesmo. Nessa época, quando a gente saía, a turminha, para brincar, tínhamos que ficar só ali por perto de casa, na frente mesmo de casa. Não podíamos sair dali, da vista das nossas mães. 

E, quando a gente não tinha ainda bicicleta, a gente nem tinha mesmo como se afastar muito. Nesse tempo, ir até o fim da rua já era uma aventura e tanto. 

Mas foi aprender a pedalar e pronto. Começamos a conquistar o mundo. Pedalando, começamos a passar dos limites do final da rua. Logo já estávamos indo até a outra rua que passava atrás das nossas casas. A sensação era como de um astronauta viajando para outro planeta. Foi nessa época que chegamos a quase presenciar um assalto, ocorrido num açougue da cidade, localizado duas ruas de distância da minha. Imagina o bafafá que não foi na pequena cidade de interior, onde nunca acontecia nada. Todo mundo só falava naquilo. E nós chegamos lá poucos minutos depois de acontecer. De bicicleta. 

Então, sabe, foi de bike que eu comecei a ter alguma autonomia, eu comecei a deixar minha casa, vamos dizer assim, em cima do selim de uma bicicleta. Foi ali que eu comecei a conhecer o mundo. Foi ali que eu comecei a a sair debaixo da saia da minha mãe, e ir a lugares que eu nunca tinha ido e que, para mim, era ir além de todas as fronteiras do universo. É muito interessante pensar desse jeito. O mundo começou a ficar enorme, ia muito além dos muros da minha casa ou da comprida rua em que morávamos.

E parece que até hoje ainda vivo isso. Em cada passeio novo, cada pedalada para um novo lado é como reviver os pedais de infância e ir além das fronteiras do meu universo, explorar novos cantos do mundo. Ainda é como ir depois dos limites da rua da minha infância. Como um explorador, um navegante rumo a novos mares, desconhecidos. Isso é bem piegas, tá bom, eu sei. Mas essa é a sensação. 

Para mim, não dá pra negar que andar de bicicleta tem uma pegada lúdica. Ou de skate, de patinete, ou girar bambolê. Qualquer coisa que você fazia quando criança e que gostava. Voltar a fazer essas coisas ligam a gente ao nosso lado infantil, que nunca morre. Eu, por exemplo, ainda estou brincando em cima da bike. 

E trazer essa emoção, trazer o lúdico para nossa vida de adulto é uma coisa muito legal mesmo. E comprovadamente faz bem para nossa saúde, física e mental. No meu caso, é andar de bicicleta e também de skate, duas coisas que fiz muito na vida. Mas acho que principalmente a bicicleta. Reviver isso me faz sentir mais novo de novo, eu volto a ser tomado por aquela felicidade pura, aquela alegria leve e sem motivo, aquela sensação de imortalidade que só as crianças têm. 

Deve ser bem por isso que várias vezes que retorno de alguns pedais mais longos – e olha que eu já fiz pedais de mais de 100km –, quando desço da bike, com as pernas ardendo de tanto esforço realizado e os músculos dos braços também cansados, no rosto eu carrego um sorriso leve, de puro prazer. Um tanto inexplicável e enigmático. 

Olha, não consigo imaginar outro meio de transporte tão eficaz e com tantas qualidades como a bicicleta: além de um excelente meio de transporte para andar pelas cidades ou pelas trilhas, é uma atividade física bem completa, indicada para todas as idades, aeróbico e de baixíssimo impacto, e é uma diversão incessante, que faz um bem danado para a alma e para a mente. 

A hora que eu subo na bicicleta, saio pelo portão de casa e vou rodar pelo mundo, naquela hora eu deixo para trás as responsabilidades da vida adulta. Ali eu esqueço dos boletos, esqueço que eu tenho que trabalhar, que eu tenho problemas ainda sem solução, mil preocupações que povoam diariamente a cabeça, pelo que fiz e pelo que ainda tenho por fazer. 

Em cima da bicicleta eu me desconecto de tudo e vou viver intensamente aquele momento. 

Inclusive essa desconexão é bem importante, porque andando pela cidade ou fazendo uma trilha por aí, você precisa ter muita atenção em tudo que está fazendo e em tudo que acontece à sua volta. A bicicleta é um veículo de transporte de equilíbrio e um veículo com pouquíssima proteção para o condutor. Então, andar de bicicleta com a cabeça em outro lugar pode não dar bom. Sem atenção, periga você não ver um buraco na pista, uma criança ou um animal atravessando na sua frente, um carro, uma moto, e aí já era. 

Resumindo, andar de bicicleta é bom pra se desconectar do mundo. E se desconectar do mundo é muito bom pra andar de bicicleta. 

Bom, por hoje era isso. Era só mesmo a necessidade de compartilhar com vocês um pouco da emoção que ainda estou vivendo. Mas nos próximos textos vamos voltar, então, a falar de mobilidade em Brasília – ou da falta de estrutura para mobilidade. Porque com esses poucos pedais que dei nesse retorno, como eu já disse no post anterior, já deu pra ver que tem muito para falar, muito para criticar e muito para sugerir. 

Então, um abraço e até a próxima. 


* imagem do post criada por inteligência artificial 

sexta-feira, 9 de maio de 2025

10 anos depois, SobreOORodas está de volta

Uma década. Esse foi o tempo que fiquei sem pedalar pela cidade. Foram 10 anos sem usar a bicicleta como meio de transporte diário. Nesse tempo, tive três motos. E, de pouco mais de um ano para cá, fiquei sem nenhum veículo particular. Nesse período, voltei à rotina de caminhar e usar o transporte público – principalmente ônibus e metrô – para me movimentar pela cidade. Eventualmente, em situações muito pontuais, usei também carros de transporte por aplicativos, mas realmente em pouquíssimas situações.

E deixa eu te contar: voltar a subir numa magrela, depois de tanto tempo, é como reencontrar um grande amor do passado. Um êxtase. Pode até parecer estranho, mas no primeiro pedal que eu fiz nesse retorno, cheguei a me emocionar de verdade. É sério!

Agora, o mais curioso é que senti como se nunca tivesse parado de pedalar. É como se só tivesse deixado a magrela na oficina, pra uma revisão mais longa. E logo já estava de volta ao meu lugar no mundo. Nem a famosa dor nos glúteos senti, mesmo dando um pedalzinho de 20 quilômetros pra comemorar o retorno.

Como eu sempre digo quando conto minhas histórias sobre pedal e sobre mobilidade: sou um ser de duas rodas. Pedalo desde os cinco ou seis anos de idade, e poucos períodos na minha vida eu não tive uma bicicleta como companheira de vida e de rolês. Tive as três motos que falei há pouco, uns seis ou sete carros, mas tive umas dez bicicletas, no mínimo, em toda minha vida. Talvez, pensando agora, esses dez anos talvez tenha sido mesmo o maior período que fiquei sem bicicleta e sem pedalar.

Mas o fato é que voltei. Voltei a ser um ser sobre duas rodas. Voltei a me locomover pela cidade usando força motora. Estou completo de novo.

E, claro, voltando a pedalar, volto a escrever sobre ciclismo urbano e sobre mobilidade em geral.

Os textos vão continuar sendo publicados aqui no blogspot, mas a partir de agora vão estar disponíveis também em áudio, lá no Spotify.

E já adianto que, após alguns poucos pedais pela cidade, esses 10 anos que passaram não trouxeram grandes evoluções na mobilidade em Brasília, não. Construíram muitos quilômetros de ciclovias, é verdade, mas me parece que ainda com a mentalidade de proporcionar lazer aos cidadãos. E não com uma visão sistêmica, uma visão mais séria de mobilidade, do uso da bicicleta e do patinete ou mesmo do pedestrianismo como meios de transporte, mesmo.

Mas isso é tema para um próximo post.

Por hoje, só estou comemorando com vocês meu retorno ao selim da bike e aos textos do SobreOORodas.

Até o próximo post! E acompanhe SobreOORodas também no Spotify